Uva: saúde e alegria

 A videira foi introduzida no Brasil por Martin Afonso de Souza, em 1532, na então Capitania de São Vicente (SP). Três anos mais tarde foi levada à Bahia e Pernambuco. Em 1551, Brás Cubas produz o primeiro vinho em território brasileiro, no planalto de Piratininga, São Paulo.

 

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Uma das plantas de origem mais nobre já conhecida, a videira foi constatada em achados fósseis que precedem ao aparecimento do Homem. Sob o ponto de vista mitológico, o arbusto que dá uvas é considerado símbolo da salubridade e alegria.

Além do sabor e beleza e do que representa sob o ponto de vista econômico, o cultivo permanente da fruta garante a fixação do homem ao solo, fazendo com que cada lavrador contribua com o progresso de sua terra.

 

Papel fundamental nesse progresso e com a esperança de encontrarem uma vida melhor no “novo mundo”, os imigrantes trabalharam e muito nas terras brasileiras. Bem recebidos ou não, aliados ou não aos anfitriões, este povo ajudou no crescimento do país e muitos fizeram daqui a “sua” Itália, o “seu” Portugal, o “seu” Japão, a “sua” Armênia, a “sua” Espanha, a “sua” Alemanha... fazendo com que o “nosso” Brasil se tornasse essa mescla de raças, culturas e um dos melhores lugares para se viver, apesar dos problemas.

 

Em Ferraz de Vasconcelos não poderia ser diferente. Imigrantes da mais variadas partes do mundo e migrantes das mais variadas partes do país ainda contribuem para o desenvolvimento e fortalecimento do município, tentando mantê-lo sob o estigma de um bom lugar para se viver, driblando as dificuldades, infelizmente pertinentes a um município pobre da região metropolitana de São Paulo.

A riqueza de sua história e gente ainda é pouco conhecida, até por parte dos munícipes. Resgatemos um pouco deste rico passado que quer se fortalecer para melhorar o futuro.

O plantio de uvas enraíza na história do município  

Família Temporim (na foto) impulsionou a festa ao ser premiada em Jundiaí (SP), em 1958.

Na atual Vila Maria Rosa, o casal de italianos Lourenço Paganucci e Rosa Simone Paganucci começa a plantação de uvas do tipo Isabel (para vinho), por volta de 1894. Eles chegaram à cidade, então distrito de Mogi das Cruzes, em 1891. Já em 1910 a chácara dos Paganucci tinha uvas do tipo Niágara Branca, conforme informações do neto do casal, residente na chácara, Silvio Paganucci.

Em 1914, fugindo da I Guerra Mundial, desembarca no Rio de Janeiro, vindo da Itália, a família Temporim. Tito e a esposa, Regina Solda e os filhos Leovaldo e Ezelino, com quatro e dois anos (respectivamente), seguem a São Paulo, chegam a Ferraz e se hospedam na casa dos Paganucci. Em 1918, nasce Antônio Temporim, que até hoje mora na cidade. Segundo ele, embora com dificuldade a formação da Chácara Irmãos Temporim teve êxito. “Tínhamos 70 variedades de uvas”, lembra orgulhoso.  

Colônia japonesa também

teve papel fundamental no plantio.

Na década de 70, a "corte" da FEUFI

contava com as crianças.

Em 1958, os Temporim expuseram sua produção na Festa da Uva realizada na cidade de Jundiaí (SP). Das 12 premiações, conquistaram 11. Conforme informou Antonio, o feito atraiu vários engenheiros agrônomos a Ferraz.

Eufóricos com o reconhecimento, produtores discutem a realização da festa na cidade. Em 14 de fevereiro de 1962 acontece a 1ª Festa da Uva Fina em Ferraz de Vasconcelos (1ª Feufi-FV). O então locutor e relações públicas do evento, Geraldo Nascimento conta que a cidade ficou conhecida internacionalmente. Em 1963, informa, “a divulgação da festa foi tão grande que, iniciada às 14h, já às 14:30h, não havia mais uvas. Cerca de 25 toneladas”.

O então governador de São Paulo, Adhemar de Barros e a esposa Leonor também visitaram o evento. Além de comparecer à festa, o governador esteve no campo experimental de fruticultura do agrônomo italiano, Luciano Poletti. Foi ele quem aclimatizou no Brasil (em Ferraz), a primeira muda de uva Itália, trazida por ele de sua terra natal, por volta da década de 30. O japonês Sussumu Ussui resolve cultivar a muda pertencente a Poletti. Pesquisa e a multiplica durante os próximos 15 anos, quando começa a produzir a fruta em escala comercial. Assim ela se espalha pelo país. “Todos vinham ver como se plantava a uva Itália, que até então era tida como importada da Itália, mas vinha de Ferraz”, comentou Nascimento.  

Ferraz berço da uva Itália, uva Itália mãe de outras uvas

A uva Rubi, de coloração rósea nas bagas, surgiu por mutação somática a partir da uva Itália, em 1972, na propriedade de Kotaro Ocuyama, em Santa Maria, norte do Paraná. O mesmo ocorreu na também paranaense cidade de Floraí, em 1988, originando a uva Benitaka, de coloração cereja, na propriedade de Sadao Tacakura. Também por mutação da uva Itália, surge, em 1993, a uva Brasil, de coloração tendendo ao negro (casca) e roxo (interna).

E as uvas em Ferraz, hoje? 

Zeca da Uva, o maior produtor da cidade.

Existem poucos pés de uva na cidade. José Reinaldo Borges Cristianismo, o Zeca da Uva é o maior produtor ferrazense, abastecendo três supermercados da cidade, um em Poá, um em Suzano e um em Mogi das Cruzes, além de vender e expor sua produção na festa ferrazense.

São 10 mil metros de área plantada. A chácara, no bairro do Cambirí, já produziu cerca de 25 toneladas de uva. Hoje, os pés mais antigos, com cerca de 50 anos estão sendo renovados. Itália, Rubi, Patrícia e Afonso Lavoisier, uvas finas com semente, são produzidas no local.

Já a chácara Ohannes Semerdjian produz para venda, vinagres, vinhos secos e suaves tintos (ou seja, de uvas escuras), a Bagaceira – água ardente feita da casca e semente de uva, o Árak – bebida apreciada por armênios, libaneses, sírios e gregos, feita do caldo da uva e redestilada com anis. Água ardente de cana e licores de outras frutas também são produzidos no local. A chácara é pioneira na produção de bebidas artesanais feitas da uva. São 40 variedades da fruta, incluindo do tipo sem sementes, totalizando 600 pés. Segundo Sérgio Semerdjian, neto do falecido senhor Ohannes, o local preserva estruturas e instalações de 1938, quando o avô começou a formar a chácara. Um exemplo é um alambique de 1949 e a residência de 1948, em estilo arquitetônico de casa de campo americana. Apenas algumas inovações para produção de novos artigos foram feitas.  

Sérgio Sermedjam utiliza o alambique de 51 anos, pertencente ao avô Ohannes.

Sérgio informou que a oficialização da festa da uva na cidade se deu em 1964, via lei estadual, sugerida pelo então deputado, Carlos Querlaquian, casado com uma tia de seu avô. Desde então, o evento consta no calendário turístico do Estado de São Paulo.

Na chácara dos Paganucci, Silvio Paganucci está formando novamente as videiras. Segundo ele, são cerca de mil pés, em 12 variedades, incluindo a uva Vênus, sem sementes. O produtor informou que o país tem interesse em plantar uvas sem sementes para deixar de importar uvas passas e produzir sua própria.  

Encontro: Silvio Paganucci, Zeca da Uva e Antonio Temporim

Já a chácara Irmãos Temporim hoje é um bairro, próximo a Vila Santa Margarida. Segundo Antonio Temporim, há 15 anos não há produção no local.

Garantir a cultura da cidade e a tradição da festa

O resgate da identidade do município, continuidade da tradicional festa da uva e incentivo à pequena agroindústria são alguns dos objetivos da futura Associação de viticultores de Ferraz e região. A fundação a entidade deverá ocorrer durante a 31ª Feufi-FV,(entre os dias 17 e 19/3/00) conforme informações de Sérgio Semerdjian, que há quatro anos encabeça a criação do órgão.

No último dia 24/2/00, secretários municipais, vereadores, produtores, o prefeito Valdemar Marques de Oliveira Filho, o Dema (PSDB), o deputado estadual da região do Alto Tietê, Junji Abe (PSDB) e o gerente na região do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Emerson de Moraes, discutiram a criação da entidade. A futura associação, apolítica, resultará de uma parceria entre prefeitura, viticultores, Sebrae e o Sindicato Rural de Mogi das Cruzes, que é presidido pelo deputado.  

Semerdjian informou que está pleiteando junto à prefeitura, uma área de dois alqueires para fazer a sede da associação e uma escola agrícola. Segundo ele, o terreno seria “emprestado”, via Comodato, por 50 anos. Ele disse que o prefeito Dema achou a idéia viável e que iria estudar a proposta.  

No último dia 1/3/00, Sérgio esteve com diretores das Faculdades Integradas Cantareira (FIC), oferecendo sua chácara para aulas práticas e experimentos para alunos e professores do curso de agronomia. Segundo ele, a faculdade demonstrou interesse no intercâmbio, que será mais um elemento que levará a cidade ao conhecimento, amparada por trabalho de técnicos altamente qualificados. A FIC também poderá ser parceira da associação, desenvolvendo trabalhos nela, como palestras para produtores, ajuda no cultivo de determinadas espécies como horta medicinal, orgânica, criação de scargots, rãs, peixes etc.

Além de ampliar a produção agrícola ferrazense, a associação e seus parceiros aumentariam as ofertas de emprego no campo (vagas diretas) e fora dele (empregos indiretos), preservando algumas áreas verdes na cidade e, já que garantirão a Feufi, por que não, incentivarão o turismo local.  

 

 
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